6 de nov de 2008

HOJE É DIA DE CECÍLIA !

Essa postagem faz parte da blogagem coletiva HOJE É DIA DE CECÍLIA que está homenageando Cecília Meireles na data do seu nascimento .
Acompanhando as postagens desse blog que trazem recordações da minha infância pelos versos de poemas ensinados por minha mãe , escolhi essa crônica de Cecília:


Foto do sobrado do Cosme Velho
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IMAGENS DA INFÂNCIA
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O grande livro está longe, mas as pálidas imagens ainda respiram: elas saem dos seus primitivos lugares, aparecem onde não as esperamos, desdobram-se de outras figuras que nos apresentam, acordam as primeiras experiências, as indeléveis curiosidades do nosso amanhecer no mundo.
Eis as velhinhas, as dos doces olhos cheios de coisas sábias, - as que nos ensinaram o tempo com as intricadas linhas de seu rosto, com as grossas veias de suas mãos quase paradas.
A doçura de viver está nas jovens sorridentes, que oscilam nos balanços embaixo das árvores. Olhai para os seus longos vestido flutuantes, para as suas tranças com fitas, para os seus olhos rápidos como borboletas – e as flores caindo dos ramos, e o sol bordado no chão seus amarelos arabescos...
A bondade está ali, detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está para sempre posta, com duas mãos que caminham, servindo a fruta, o leite, o pão. O relógio marca o dia e a noite, como pára vidas sem fim. Ninguém estremece, Ninguém se lembra da morte. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros, todos estão ali à espera dos que chegam. Para socorrer.

(...) Acertaremos os nossos relógios pelos modestos pais de família que vêm de tão longe, de tão longe – oh! De que mundos ignotos chegam os pais de família ...? – com seus embrulhos no gancho do dedo, com os seus jornais embaixo do braço, e, às costas, a sua fadiga de um dia inteiro fazendo um trabalho monótono e incessante... As crianças farejam os embrulhos como gatos, como cães.. “Café!” “Queijo!” “Sabonete!” Como são felizes as crianças , quando os pais chegam, de tão longe, de tão longe, com os embrulhos pendurados nos dedos...
Nos caramanchões que o luar vagamente desvenda estão os noivos inacreditáveis, falando como personagens de romance. Esses não são os que amanhã veremos casados, são os que apenas vivem o episódio de novos, com luares, caramanchões, insônias, pianos cheios de valsas, cartas cor de ametista, que um dia ficam sem resposta.
As professoras estão limpando o bico da pena em flanelas verdes. “Como se chama o rio maior do mundo?” Como se chamará? Estamos procurando pelas paredes, pela janela aberta, lá pelo céu azul, com muitos anjos invisíveis... Como se chamará ? Se os anjos descessem e dissessem! Mas não descem nem dizem.
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(...) Os vendedores de doce desaparecem pelas esquinas, soprando numa gaita de folha. O instinto bucólico fica de longe seguindo-os, e depois deixa-se esmagar pelas rodas dos carros nas ruas de pedra, enquanto leves campainhas oscilam e esmorecem no crepúsculo.
As crianças patinam nas praças. Os estudantes fazem vaidosos pescoços à porta dos cinemas. Os cocheiros dos coches fúnebres voltam dos cemitérios chicoteando os cavalos tristes. Todos estamos pulando corda, e não morreremos nunca. Mas os cães uivam, e a criada vira o chinelo debaixo da cama, antes de dormir.
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(São Paulo, JORNAL DE NOTÍCIAS, 12 de novembro de 1948)
In : Cecília Meireles - Obra em Prosa - CRÔNICA EM GERAL - Tomo 1. Editora Nova Fronteira, p. 279-281