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25 de dez. de 2008

Canto de Natal




O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
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Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
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Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino,
Seu nome é Jesus!
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Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino!
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Manuel Bandeira
(Estrela da vida inteira. Editora José Olympio, p.168)

31 de ago. de 2007

PORQUINHO-DA-ÍNDIA

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Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
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Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
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Manuel Bandeira
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23 de jul. de 2007

Meninos carvoeiros

Os Carvoeiros de Nigel Noble
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Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.
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Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.
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.(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe,
dobrando-se com um gemido.)
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— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles . . .
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!
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—Eh, carvoero!
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Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.
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Manuel bandeira
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5 de ago. de 2006

A ESTRELA

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Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
na minha vida vazia.
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Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
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Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
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E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
mais triste ao fim do meu dia.
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Manuel Bandeira
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TREM DE FERRO

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Café com pão
Café com pão
Café com pão
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Virge Maria que foi isso maquinista?
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Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
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Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
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Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
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Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
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Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
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Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
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Manuel Bandeira
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1 de ago. de 2006

OS SAPOS





Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
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Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
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O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
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Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
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O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
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Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
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Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
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Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
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Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
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Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".
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Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".
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Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
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Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
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Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
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Manuel Bandeira
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IRENE NO CÉU

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Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
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Manuel Bandeira
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