6 de fev. de 2009

MINHA TERRA

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Pintura de Tarsila do Amaral
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Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
G. DIAS.
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Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha;
— Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.
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Correi pr'as bandas do sul:
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil;
— É uma terra de amores
Alcatifada de flores,
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de abril.
(...)
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É um país majestoso
Essa terra de Tupá,
Desd'o Amazonas ao Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
— Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá.
(...)
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Quando Dirceu e Marília
Em terníssimos enleios
Se beijavam com ternura
Em celestes devaneios;
Da selva o vate inspirado,
O sabiá namorado,
Na laranjeira pousado
Soltava ternos gorjeios.
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Foi ali, foi no Ipiranga,
Que com toda a majestade
Rompeu de lábios augustos
O brado da liberdade;
Aquela voz soberana
Voou na plaga indiana
Desde o palácio à choupana,
Desde a floresta à cidade!
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Um povo ergueu-se cantando
— Mancebos e anciãos —
E, filhos da mesma terra,
Alegres deram-se as mãos;
Foi belo ver esse povo
Em suas glórias tão novo,
Bradando cheio de fogo:
— Portugal! somos irmãos!
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Quando nasci, esse brado
Já não soava na serra
Nem os ecos da montanha
Ao longe diziam — guerra!
Mas não sei o que sentia
Quando, a sós, eu repetia
Cheio de nobre ousadia
O nome da minha terra!
(...)
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Casimiro de Abreu
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25 de dez. de 2008

Canto de Natal




O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
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Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
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Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino,
Seu nome é Jesus!
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Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino!
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Manuel Bandeira
(Estrela da vida inteira. Editora José Olympio, p.168)

Estrela do menino pobre


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ESTRELA DO MENINO POBRE
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Uma estrela pequenina,
cintilante, de brocal,
anuncia na vitrina:
hoje é dia de Natal.
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O menino da favela,
sem camisa,
pés no chão,
acha a estrela muito bela
e quer tê-la em sua mão.
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Por amá-la e por querê-la,
fica tempo a meditar:
Como é bela a minha estrela !
e depois, põe-se a chorar.
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Um milagre, enquanto chora,
Deus acaba de operar:
e o menino vai-se embora
c'o uma estrela em cada olhar !
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Gióia Júnior
(Canto Maior. Editora JUERP, p. 59)

6 de nov. de 2008

HOJE É DIA DE CECÍLIA !

Essa postagem faz parte da blogagem coletiva HOJE É DIA DE CECÍLIA que está homenageando Cecília Meireles na data do seu nascimento .
Acompanhando as postagens desse blog que trazem recordações da minha infância pelos versos de poemas ensinados por minha mãe , escolhi essa crônica de Cecília:


Foto do sobrado do Cosme Velho
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IMAGENS DA INFÂNCIA
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O grande livro está longe, mas as pálidas imagens ainda respiram: elas saem dos seus primitivos lugares, aparecem onde não as esperamos, desdobram-se de outras figuras que nos apresentam, acordam as primeiras experiências, as indeléveis curiosidades do nosso amanhecer no mundo.
Eis as velhinhas, as dos doces olhos cheios de coisas sábias, - as que nos ensinaram o tempo com as intricadas linhas de seu rosto, com as grossas veias de suas mãos quase paradas.
A doçura de viver está nas jovens sorridentes, que oscilam nos balanços embaixo das árvores. Olhai para os seus longos vestido flutuantes, para as suas tranças com fitas, para os seus olhos rápidos como borboletas – e as flores caindo dos ramos, e o sol bordado no chão seus amarelos arabescos...
A bondade está ali, detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está para sempre posta, com duas mãos que caminham, servindo a fruta, o leite, o pão. O relógio marca o dia e a noite, como pára vidas sem fim. Ninguém estremece, Ninguém se lembra da morte. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros, todos estão ali à espera dos que chegam. Para socorrer.

(...) Acertaremos os nossos relógios pelos modestos pais de família que vêm de tão longe, de tão longe – oh! De que mundos ignotos chegam os pais de família ...? – com seus embrulhos no gancho do dedo, com os seus jornais embaixo do braço, e, às costas, a sua fadiga de um dia inteiro fazendo um trabalho monótono e incessante... As crianças farejam os embrulhos como gatos, como cães.. “Café!” “Queijo!” “Sabonete!” Como são felizes as crianças , quando os pais chegam, de tão longe, de tão longe, com os embrulhos pendurados nos dedos...
Nos caramanchões que o luar vagamente desvenda estão os noivos inacreditáveis, falando como personagens de romance. Esses não são os que amanhã veremos casados, são os que apenas vivem o episódio de novos, com luares, caramanchões, insônias, pianos cheios de valsas, cartas cor de ametista, que um dia ficam sem resposta.
As professoras estão limpando o bico da pena em flanelas verdes. “Como se chama o rio maior do mundo?” Como se chamará? Estamos procurando pelas paredes, pela janela aberta, lá pelo céu azul, com muitos anjos invisíveis... Como se chamará ? Se os anjos descessem e dissessem! Mas não descem nem dizem.
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(...) Os vendedores de doce desaparecem pelas esquinas, soprando numa gaita de folha. O instinto bucólico fica de longe seguindo-os, e depois deixa-se esmagar pelas rodas dos carros nas ruas de pedra, enquanto leves campainhas oscilam e esmorecem no crepúsculo.
As crianças patinam nas praças. Os estudantes fazem vaidosos pescoços à porta dos cinemas. Os cocheiros dos coches fúnebres voltam dos cemitérios chicoteando os cavalos tristes. Todos estamos pulando corda, e não morreremos nunca. Mas os cães uivam, e a criada vira o chinelo debaixo da cama, antes de dormir.
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(São Paulo, JORNAL DE NOTÍCIAS, 12 de novembro de 1948)
In : Cecília Meireles - Obra em Prosa - CRÔNICA EM GERAL - Tomo 1. Editora Nova Fronteira, p. 279-281